Humildade não é subserviência

Para ser honesto, não me sinto o maior ídolo brasileiro. Não me sinto uma pessoa tão importante assim para merecer uma festa durante uma noite toda no Brasil.

Olá! Rogério Braga aqui.

É com essa humilde frase de nada mais nada menos que Ayrton Senna ao se sagrar tricampeão mundial de Fórmula 1 que eu começo o post de hoje. O assunto que passa diante dos nossos olhos de uma maneira muito sutil, mas que acaba fazendo toda diferença na nossa sociedade. Antes de abordar o assunto diretamente, gostaria de passar brevemente por uma história que acontece no dia a dia brasileiro, e seu significado passa muitas vezes desapercebido.

A CENA:

Uma faculdade em uma cidade qualquer. Um curso de humanas ou gerenciais qualquer. Aula de sociologia, filosofia ou algo do gênero. Sexta-feira, segunda de duas aulas existentes no turno da noite. Matriculados na matéria: aproximadamente 40 alunos. Presentes no dia: 35, dos quais 28 estão na mesa do bar ao lado da faculdade. O professor liberou a chamada, pois ele parte do pressuposto que só dará aula para quem está afim de estudar.

A ANÁLISE:

Você deve estar pensando que vou criticar algum elemento da cena, mas não! Essa análise vou deixar para você. Convido primeiramente analisar o sentimento que você teve em relação à cena. Em seguida irei te perguntar:

– Você analisou a cena sob qual perspectiva? Dos alunos que ficaram em sala? Dos alunos que partiram para tomar uma no bar? Talvez você tenha analisado sob a perspectiva do professor ao lidar com essa situação – só não sei se foi dando ou retirando sua razão.

Talvez ainda tenha dado um passo atrás e olhado a situação sob a ótica do macroambiente e o resultado  dessa prática para a nação.

Bem, pra mim não importa qual seja seu mapa, apenas quero pontuar o seguinte: essa cena é muito comum nas faculdades brasileiras. Eu vivi isso como estudante de administração. E não era só minha turma que lotava o bar. A faculdade de meus amigos e familiares foram do mesmo jeito e basta passar em um boteco ao lado de qualquer faculdade para constatar que nada mudou. Sinto confessar que me senti extremamente dividido na época quando me deparei com a situação. Por vezes eu fiquei em sala, louco querendo estar no bar, e por vezes no bar, me sentindo culpado querendo estar em sala.

Somos seres biopsicossociais e nossa parte social é muito forte. Temos a tendência de precisar de aprovações sociais o tempo todo. Ou vai me dizer que você não fica ligeiramente frustrado quando posta algo na sua rede social e não recebe nenhuma curtida? Ou seja, naquele momento do bar, o valor coletivo chamado “conhecimento” foi pro espaço! Para ser aprovado pelo grupo você deve estar no bar, caso o contrário, apelidos como caxias, passa cola ou primeiro da fila e outros muito mais pesados inclusive, começam a se fazer presente na vida do suposto “nerd”. Talvez a galera dos vinte poucos anos pegue um pouco mais leve, mas ainda sim são heranças do ensino fundamental e médio presentes.

O que podemos notar com isso?

Você notou como há uma inversão de valores nessa cena? No Brasil há diversas inversões de valores como essa. Sei que há também em outras culturas pelo mundo, mas sou apaixonado pelo meu país e é aqui que posso fazer a diferença, então para mim é aqui que importa! Aqui o delator é considerado um traíra ou como diz a gíria: X9! O estudioso um vacilão sem graça. O homem que respeita mulheres é um maricas! Você tem muitos exemplos pra me dar, tenho certeza!

Mesmo citando esse filtro em relação aos significados e significantes, me responda uma coisa: se eu disser para você pensar em uma pessoa humilde, que tipo de pessoa vem a sua cabeça?

humildade de mordomo
Cena do filme “O Mordomo da Casa Branca”

Talvez você tenha pensado em alguém simples, sem recursos financeiros, que é sempre o explorado do contexto, com seus olhos tristes, desejosos por comida e provavelmente sua pele não é clara.

Não se sinta envergonhado por pensar assim. Sinta-se envergonhado caso decida continuar pensando assim! Esse esteriótipo foi instalado em nós. Aprendemos isso e acabamos passando esse valor inconscientemente para nossos familiares, filhos, amigos…

atençãoatençãoVocê já assistiu ao filme Mordomo da Casa Branca? Não?!
Então ATENÇÃO! Irei fazer spoiler nos próximos parágrafos. Portanto, se não quiser saber do final do filme, assista antes de terminar a leitura.

 

No filme baseado em fatos reais, Cecil Gaines foi mordomo oficial da Casa Branca servindo 8 presidentes americanos por 34 anos. Cecil aprendeu a servir, uma faceta da humildade, mas aprendeu para evitar possíveis infortúnios após o assassinato de seu pai – a barbárie ocorreu na sua frente – e o enlouquecimento de sua mãe após um estupro. O filme não mostra, mas fica subentendido que esse tipo de abuso era constante. Para passar desapercebido pela opressão que pessoas negras* sofriam principalmente no sul dos Estados Unidos durante o século 20, aprendeu a fazer a famosa “cara de paisagem”. Sempre instruído a não ser notado enquanto entrava em algum recinto onde estava desempenhando suas funções de servir. Não deveria ouvir – como se isso fosse possível! Não deveria ter opinião política, não deveria se manifestar, ou seja, não deveria SER.

*eu iria usar o termo afrodescendente para ser politicamente correto, mas acho um tanto preconceituoso a maneira que esse “politicamente correto contemporâneo” procura colocar pessoas fortes em uma bolha de proteção invertendo valores. Por isso optei pela palavra que deve causar no máximo certo orgulho e não outra coisa.

Já seu filho Louis, olhava aquela situação com desprezo. Entendia que o pai era um covarde, não lutava por seus direitos, não lutava por ser alguém. Além de tratar o pai com muita arrogância ao ter a plena certeza de que seu pai estava no caminho errado. Naturalmente tinha conflitos com Cecil, afinal recebeu estudos, além de casa, comida e roupa lavada financiados com o salário de mordomo de seu pai. Não é de se admirar a arrogância também por parte de Cecil ao tratar seu filho como ingrato e egoísta.

A beleza da resolução do drama começa a aparecer quando Louis começa a entender a importância da luta do pai, mas seu apogeu acontece principalmente, quando Cecil, por circunstâncias diversas, recebe da Primeira Dama um convite estendido à sua esposa para jantar na Casa Branca. Ao entrar no salão, Cecil percebe as caras que seus colegas faziam, assim como ele, para se passarem por desapercebidos. Naquele momento ele entendeu a outra faceta da humildade, aquela que seu filho buscava com muito suor e determinação ao não revidar por diversas vezes, humilhações, socos, xingamentos, apenas com resistência em busca da construção de um mundo melhor para todo um povo, em busca da vida!

Falamos de Inversão de valores, das facetas da humildade e agora: seu conceito!

A inversão de valores que nos referimos lá atrás também acontece quando se fala em humildade. A etimologia da palavra humildade vem do grego antigo HUMUS, que significa “terra”. É o mesmo vocábulo que deu origem às palavras “homem” e “humanidade”, significando inicialmente “terra fértil” e “criatura nascida da terra”. Ou seja, é aquilo que vem do chão. Não é possível que a negação de si seja algo que possa chegar perto da humildade. Naturalmente, é importante observar que a contrapartida que pode levar ao lado negativo dessa postura é o orgulho. O orgulho desenfreado não é bom, falaremos disso em outra oportunidade!

Portanto, uma pessoa humilde não é aquela pessoa pobre e carente de recursos. Uma pessoa humilde é aquela que dá vida, seja ela pobre ou rica, negra ou branca, percebe? Independe de cor de pele ou condição econômico-social. Independe de aprovação social ou estereótipos. Depende unicamente de sua postura e sabedoria. Perceba que alguém que entende que seu conhecimento é limitado, não vê problema em dizer “não sei”. Neurolinguisticamente falando, o primeiro impulso de uma pessoa saudável ao admitir que não se sabe algo é procurar saber. Afinal, quanto mais aumenta nosso conhecimento, mais visível fica nossa ignorância. É aí que começa a nascer a humildade, nasce de uma pessoa que dá a vida.

Uma pessoa com essa consciência vai aos poucos perdendo o poder – e também a necessidade – de tratar outra pessoa colocando-a acima ou abaixo de seu próprio patamar e nessa hora, tudo que surge é união… vida! Isso é humildade, subserviência é outra coisa.

Subserviência é a sujeição servil à vontade alheia, a submissão voluntária a alguém ou a alguma coisa, ou seja, é abdicar-se. A subserviência pode até dar a vida, só que apenas temporariamente. Sua contrapartida é a morte de um sonho dentro de você. Ajudar o outro é fantástico! Viver para o outro não! Foi isso que Cecil percebeu e que o motivou a largar seu emprego de anos para se juntar ao filho nos protestos contra a segregação. Tudo que ele desejava desde que saiu da fazenda que foi criado foi a liberdade. Percebeu sua subserviência, confundida com humildade.

É isso que acontece com você quando abdica de si para agradar um companheiro egoísta, ou um chefe arrogante. É isso que acontece com você quando prefere subir na carreira dando presentinhos e mimos, óh majestade! Talvez se torne o arrogante quando ocupar o lugar de chefia, pois além de ainda ter que se reportar a alguém da mesma maneira para se manter no cargo, acreditará que seu subordinado terá que pagar o mesmo pedágio como você pagou. É o que acontece com você quando não tem voz em casa perante a esposa ou marido por confundir subserviência com humildade. Como é sua relação com os colegas de trabalho, amigos e família? Enfim, temos as diversas culturas que merecemos. Cultivamos!

Quando se tem humildade, se trabalha melhor em equipe. Quando se tem humildade, se tem a possibilidade de perceber melhor vários mapas e percepções em pessoas diferentes. Você consegue perceber os talentos de outras pessoas muitas vezes até antes delas mesmas e tem a oportunidade de ajudá-las a florescer. Essa é a melhor maneira de servir que se pode existir, fazer alguém crescer.

Quer um exemplo de humildade sem subserviência? Ele que mesmo sendo o talentoso que era, poderia ter “pisado” em todo mundo, como fez seu também talentoso rival, ou se sentir como se sente um certo ex-presidente: “O CARA”! Mas de fato ele sabia que não iria a lugar algum se não reconhecesse o trabalho de quem estava ao seu lado. Ainda assim brigou e não abaixou a cabeça quando sacanearam ele em 1989 trocando a posição da Pole Position favorecendo a largada de Alain Prost e seu campeonato. Ayrton era querido por onde passou. Valorizava sua equipe! Seu nariz não era nem acima, nem abaixo do horizonte!

Eu sou parte  de uma equipe. Então, quando venço, não sou eu apenas quem vence. De certa forma termino o trabalho de um grupo enorme de pessoas!
– Ayrton Senna –

Para quem não conhece a história que me referi vai um resumo: Senna estava em segundo no campeonato de 1989 e precisava ganhar as duas últimas provas para ser campeão. Na penúltima prova ele fez o primeiro dever de casa e conquistou a pole position. Jean-Marie Balestre, francês e presidente da FIA na época, solicitou a inversão das posições da largada, fazendo com que a pole ficasse ao lado sujo da pista, favorecendo quem largasse em segundo, que era Alain Prost, outro francês, rival de Senna e líder do campeonato. Como imaginado Senna largou atrás e assim permaneceu até as últimas voltas, quando ao tentar ultrapassar Prost, os dois se colidiram logo antes de uma chicane. Se Senna abandonasse a prova, Prost seria o campeão. Senna pediu para que os auxiliares de pista o ajudassem a voltar para a prova e conseguiu. Ganhou, mas foi desclassificado, pois a interpretação dos diretores da prova foi que ele infringiu um dos artigos ao passar por dentro da chicane após o acidente. No ano seguinte foi campeão em outro acidente semelhante com o mesmo piloto rival, mas dessa vez quem precisava pontuar era Prost.

Esse mesmo Senna foi visto como arrogante quando solicitou a mudança da pole naquele ano, por diversas pessoas, principalmente pelos franceses. Não teve sucesso. Ele foi visto como arrogante ao enfrentar um sistema. Foi visto como arrogante e imaturo quando brigou pela polêmica da chicane e quando forçou a tal ultrapassagem em cima de Prost no ano seguinte e foi campeão na mesma moeda, levando sua equipe mais uma vez ao campeonato de construtores. Um cara que deu vida! Não fez por aprovação social. Visto como arrogante por muitos, mas humilde em seu coração. Seus discursos eram sempre sobre melhorar em si mesmo.

Um sistema pode inverter valores, mas não pode matar o poder da humildade!


Cena que também aparece no filme de 2010 chamado “Senna”. Recomendo INCANSAVELMENTE!

Sem entrar no mérito da desavença com os franceses, a postura desse cara é de se invejar. A intenção desse post é mostrar um pouco dessa outra perspectiva a todos os brasileiros. Um insight sobre o crescimento, humildade e sobre alguns sistemas insossos que premiam a subserviência. Sei que não devia estar dando essa dica, deveria estar vendendo, mas vai de graça 😉 mesmo assim: Não faça outra coisa da vida senão procurar seu crescimento, dar a vida e empreender! Não estou dizendo para largar o emprego, hein? (Talvez apenas se você não encontrar uma empresa que não tenha uma cultura humilde… rs) Me refiro ao empreendimento de si próprio.

Há empresas que possuem excelentes culturas organizacionais, onde você pode empreender dentro dela e ainda ser premiado por isso! Onde a última coisa que você vai  querer pensar são nas leis trabalhistas para te proteger, sua própria postura é que irá te manter. Quero dizer também sobre relacionamentos onde há um detrimento de uma das pessoas em relação a outra. Relacionamentos tóxicos! Onde a tristeza vai ganhando espaço aos pouquinhos em troca de uma certa segurança afetiva, financeira ou seja lá qual for!

Sejamos humildes!

Espero ter acrescentado um pouco hoje a você. Essa é a minha missão! Não sou melhor nem pior que você, estamos apenas juntos construindo um país ao pararmos para pensar juntos e agirmos de forma mais assertiva. Essa é a mensagem que quero espalhar! Se esse insight foi bacana pra você, peço humildemente que compartilhe esse post com seus amigos e familiares. Nosso corpo e a mente formam um só sistema. Esses sistemas devem se ajudar, são subsistemas formando um sistema maior chamado sociedade. Acredito no potencial e na criatividade do povo desse país! COMPARTILHE!

Forte abraço brasileiro!

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